Este artigo é um alerta. Um alerta que, se ignorado, pode custar vidas nos primeiros meses de 2027. O Ministério da Saúde já acionou o sinal vermelho: o fenômeno El Niño, que será especialmente severo, trará um aumento significativo de arboviroses — em especial dengue, zika e chikungunya. E nós, aqui no Distrito Federal, já conhecemos o preço dessa conta.
Em 2024, perdemos quase 500 vidas para a dengue no DF. Quinhentas pessoas que poderiam estar vivas hoje, se o poder público tivesse agido a tempo. Agora, o fantasma da epidemia volta a assombrar a cidade — e o cenário se agrava porque o surto ocorrerá justamente nos primeiros meses do novo governo, quando a máquina administrativa ainda estará se reorganizando, após as eleições.
O alerta do Ministério da Saúde indica que os efeitos do El Niño serão mais severos na região litorânea. Mas isso não significa que podemos baixar a guarda aqui, no meio do Planalto Central. Pelo contrário: historicamente, a dengue se espalha no DF justamente quando os brasilienses voltam de férias no litoral e outras regiões endêmicas já infectados, trazendo o vírus para uma cidade, onde o mosquito espera, pronto para picar e espalhar o vírus para quem está saudável, como fogo no cerrado seco.
E o motivo para preocupação cresce quando olhamos o relatório de infestação do Aedes aegypti: metade do DF está com índices que indicam alto risco de surto ou epidemia. A escala usada para medir a infestação vai de 1 a 5. As cidades em melhor situação estão entre os níveis 2 e 3; a outra metade esá ainda pior e ultrapassa o índice 4. E, na temporada de chuvas — ainda que escassas por causa do El Niño —, a perspectiva é que a quantidade de mosquitos triplique.
O quadro climático piora ainda mais esse cenário: a tendência é de chuvas irregulares e aumento de temperaturas. Esse é o paraíso da mosquitolândia! As larvas amadurecem mais rápido, desenvolvem o exoesqueleto e se tornam mosquitos ávidos por sangue humano — inclusive o daqueles que se infectaram no litoral. É a explosão de uma bomba epidêmica.
O que pode ser feito, neste exato momento, é combater a infestação do Aedes aegypti para conter a crise que já está anunciada. Mas, para isso, precisamos de aumentar o números de agentes comunitários de saúde e de vigilância ambiental em saúde, treinar esse novos servidores e os que já estão em serviço. Precisamos garantir manutenção dos equipamentos de combate ao mosquito, repor os estoques de material de trabalho para as equipes de vigilância ambiental e inseticida. Parece simples — e é. Mas tudo isso está em falta na Secretaria de Saúde do DF.
É o mesmo cenário que denunciamos em 2023. Naquela época, a Secretaria de Saúde de Ibaneis Rocha não fez o dever de casa. E veio a tragédia: mais de 4 mil casos de dengue registrados, quase 500 mortes, hospitais, UPAs e unidades básicas de saúde lotados, sofrimento e perda evitável de vidas humanas. Além disso, o governo gastou uma fortuna comprando emergencialmente barracas de lona, medicamentos e equipamentos para atender pacientes no meio da rua, sem as condições sanitárias ou o mínimo de conforto adequado. Sem contar uma série de outros improvisos que não evitaram as mortes.
Vai ter quem diga: “agora a gente tem vacina contra a dengue”. Mas a vacina é apenas um recurso entre muitos. Não é indicada para todas as idades, pode faltar e não previne as outras doenças transmitidas pelo Aedes. Fazer o combate ao mosquito agora é indispensável para evitar mais caos nas unidades de saúde e, sobretudo, para evitar a perda de vidas e o sofrimento das famílias do Distrito Federal.
A forma mais inteligente, de menor custo financeiro e pessoal, de lidar com doenças infectocontagiosas é a prevenção. E é isso o que precisamos colocar em prática — imediatamente.
