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Rombo do BRB: de Brasília a Dubai

Rombo do BRB: de Brasília a Dubai

Sucesso sertanejo, o título da música que ganhou o coração dos brasileiros, “De Quem é a Culpa?”, não poderia ser mais adequado para o enredo do caso do rombo do BRB.

Nesse caso, porém, não se trata de um hit romântico ou de uma letra de sofrência; estamos falando de decisões que têm impactos reais e profundos na vida de toda a população do Distrito Federal. A pergunta que ecoa no refrão da música é a mesma que deveria ecoar na consciência de quem governa: de quem é a culpa pelo rombo no BRB?

Infelizmente, a resposta é clara: a culpa é do GDF e de quem autorizou, em agosto de 2025, a compra do Banco Master pelo Banco de Brasília.

Nesta terça-feira, 4 de março, a Câmara Legislativa do Distrito Federal aprovou um projeto de lei que tenta “salvar” o BRB do abismo em que foi jogado por essas mesmas decisões. O resultado, no entanto, é um alerta dramático: o Governo do Distrito Federal decidiu transformar o patrimônio público em moeda de troca para cobrir a maior tragédia financeira da sua história recente.

Para garantir o empréstimo de R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e resgatar o BRB da associação desastrosa com o Banco Master, Ibaneis Rocha colocou nove imóveis estratégicos como garantia. Não se trata de terrenos baldios ou de sobras de estoque, mas do coração da máquina pública candanga: empresas e sedes essenciais para o funcionamento da cidade.

Na lista, aprovada a toque de caixa pela CLDF, estão: Lote B do SIA, onde opera a Novacap; Lote F, que abriga a Caesb; Lote C, propriedade da CEB.

Além disso, o PL inclui a área ambiental da Serrinha do Paranoá — região estratégica para o equilíbrio hídrico do DF, com mais de 100 nascentes catalogadas. Conhecida como “berço das águas”, essa área protege Brasília de racionamentos e garante estabilidade climática. Entre 2016 e 2018, vale lembrar, passamos por uma grave crise hídrica: reservatórios do Descoberto e Santa Maria/TortoSim chegaram a níveis críticos, levando a racionamentos por 513 dias, com consequências diretas na saúde pública e na qualidade de vida da população. Transformar essa área em garantia financeira é um erro de proporções históricas.

Aqui, é importante lembrar as justificativas públicas do governador Ibaneis Rocha para a compra do Master: “O BRB precisa se expandir. Porque fizemos uma grande capitalização do BRB e uma grande captação de recursos, de tribunais de justiça, através do meu trabalho como advogado, assim como a compra de folhas de pagamento, desde municípios a estados. Mas, essa captação precisa ser investida no mercado para que possa dar bons frutos”. E concluiu: “Não estamos comprando um risco. Estamos comprando uma oportunidade.”

Enquanto isso, durante a aprovação do PL nesta terça-feira, o líder do governo na Câmara defendeu a operação de resgate do BRB, afirmando: ‘Quem levou o BRB a essa situação que responda e vá pra cadeia, mas não poderíamos penalizar o banco’. Um argumento curioso, considerando que ele mesmo votou a favor da compra do Banco Master pelo BRB em 2025.

O governador afirma estar tranquilo: “Me preocupo com o BRB, que é patrimônio da cidade”. Será mesmo? O presidente do banco, Nelson Antônio de Souza, chegou a dizer que o BRB é vítima e que está sendo resgatado por ações judiciais e capitalização. É verdade: o BRB é vítima. Mas de quem? Não de um mercado agressivo ou de investidores externos. É vítima daqueles que deveriam zelar por ele — os próprios gestores e o Executivo: que aprovaram decisões equivocadas e agora tentam mudar a narrativa e justificar o desastre. Os algozes estão mais próximos do que a população imagina.

Outro ponto interessante de se observar é que, segundo o atual presidente do BRB, o banco patrocinou um festival de vela em Dubai. O que só foi cancelado após o rombo causado pela compra do Master. Mas, questiono: por que investir em um festival de vela em Dubai, enquanto o povo do DF se afoga na incompetência da saúde?

O Real Brasília, único representante do Distrito Federal no Brasileirão Feminino, não disputará a edição deste ano porque não conseguiu patrocínio. Em 2021, clubes como Brasiliense e Gama também não tiveram acesso aos recursos prometidos pelo Programa de Incentivo ao Desenvolvimento do Futebol do DF.

Banco público não é laboratório financeiro nem palco para aventuras sem análise técnica. É patrimônio da população. E transformar imóveis estratégicos e áreas ambientais em moeda de troca para salvar um banco é uma decisão que exige atenção e cobrança de todos os cidadãos. Porque diz respeito a todos nós.

Então, volto à pergunta que abriu este texto e inspirou o sucesso sertanejo: de quem é a culpa pelo rombo do BRB? A resposta não deixa dúvidas: a culpa é de Ibaneis Rocha e dos gestores que autorizaram a compra do Banco Master pelo BRB, que colocaram interesses próprios acima do patrimônio público e da população do Distrito Federal.

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