Skip links

Eu avisei: projeto do GDF é agravar a crise na Saúde

O governo do Distrito Federal voltou a afirmar que será necessário “manter o cinto apertado” nos gastos da Saúde em 2026. A declaração mostra do projeto do DF de agravar a crise na Saúde e veio após questionamentos sobre os atrasos nos repasses ao Hospital da Criança de Brasília — atrasos que, no fim de 2025, levaram ao fechamento de leitos de UTI e enfermaria, com impactos diretos sobre crianças, famílias e profissionais de saúde.

O GDF atribui a situação ao aumento dos custos de insumos, a desequilíbrios contratuais e a uma suposta frustração de receita. Esse discurso, no entanto, não se sustenta. Mais do que isso, encobre uma decisão política consciente de sucatear a Saúde pública no Distrito Federal.

Ao longo de 2025, a crise se aprofundou sem qualquer sinal concreto de enfrentamento. O orçamento da Saúde no DF foi da ordem de R$ 13 bilhões. Para 2026, o próprio governo do DF encaminhou à Câmara Legislativa o Projeto de Lei Orçamentária Anual já com um corte de R$ 1,1 bilhão na área, aprovado em dezembro. Ou seja, o aperto não é consequência inevitável: foi planejado, proposto e aprovado pelo Executivo.

Os dados oficiais desmontam a narrativa de colapso fiscal sustentada pelo governo. Entre janeiro e novembro de 2025, a arrecadação de impostos do DF alcançou R$ 24,14 bilhões, crescimento nominal de 6,6% em relação a 2024. Mesmo descontada a inflação, houve aumento real de 1,6%. A Associação dos Auditores Fiscais da Receita do DF contestou publicamente a tese de queda de arrecadação apresentada pelo GDF.

O detalhamento confirma esse cenário. O ICMS cresceu R$ 250,3 milhões; o ISS, R$ 227,2 milhões; o Imposto de Renda Retido na Fonte, R$ 155,6 milhões. ITCD e IPVA também registraram alta. As quedas ficaram restritas a tributos específicos, sem impacto estrutural capaz de justificar a ideia de crise generalizada.

Mais grave: a receita realizada superou as previsões orçamentárias. Em relação à Lei Orçamentária Anual, o DF arrecadou R$ 2,236 bilhões a mais do que o previsto, crescimento de 10,2%. Pela Programação Financeira, houve excesso de R$ 306,6 milhões. O problema, portanto, não é falta de dinheiro. É prioridade — como venho alertando há tempos.

O contingenciamento da Saúde se tornou prática recorrente no atual governo do DF. Em 2023, cerca de R$ 1 bilhão do orçamento foi bloqueado, sendo mais de R$ 400 milhões retirados diretamente do Fundo de Saúde. Em 2025, a área voltou a ser atingida. Agora, para 2026, o corte já está inscrito na lei orçamentária. Não houve explosão de gastos. Houve compressão deliberada do orçamento.

Esse cenário expõe o cinismo do discurso em torno do Fundo Constitucional do DF. Em dezembro de 2024, o GDF afirmou que qualquer mudança no Fundo levaria a Saúde ao colapso. O Fundo foi mantido, com cerca de R$ 23 bilhões garantidos ao Distrito Federal. Ainda assim, a Saúde entrou em colapso.

Hospitais acumularam dívidas, leitos de UTI foram fechados, pediatrias reduziram atendimentos e crianças com câncer ficaram sem assistência adequada. Agora, o governo do DF anuncia que vai “apertar ainda mais o cinto” da Saúde em 2026.

O Hospital da Criança não enfrenta dificuldades por má gestão, assim como o SUS-DF não entrou em crise por incompetência dos profissionais. O que existe é uma política continuada de estrangulamento financeiro, sustentada por cortes orçamentários mesmo em um cenário de arrecadação crescente.

A Saúde pública não pode ser tratada como variável de ajuste fiscal. É dever constitucional do Estado. Quando um governo propõe cortes, aprova cortes, contingencia recursos e fecha leitos, isso não é acaso. É projeto.

Por isso, eu avisei. Sem financiamento adequado e sem prioridade real, o sistema entra em colapso. E quem paga essa conta é a população que depende exclusivamente do SUS. Austeridade seletiva não é responsabilidade fiscal. É escolha política — e, no Distrito Federal, essa escolha tem sido feita sistematicamente contra a Saúde pública.

Este site usa cookies para melhorar sua experiência na web.