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Depois do BRB, queremos saber: onde está o dinheiro do Iges-DF?

Depois do BRB, queremos saber: onde está o dinheiro do Iges-DF?

O alagamento na UTI do Hospital de Base, nesta semana, é apenas a cena mais recente de uma novela que Brasília já conhece: aportes milionários à sombra, contratos mal explicados, operações de investigação, irregularidades apontadas por tribunais e unidades de saúde caindo aos pedaços sob o comando do Instituto de Gestão Estratégica do Distrito Federal (Iges-DF) – entidade criada para gerenciar serviços de saúde públicos da Capital Federal. Porque a pergunta que ninguém do governo responde é simples: para onde vai o dinheiro da saúde? Queremos saber.

O alagamento do Hospital de Base, assim como os registrados no Hospital Cidade do Sol, em 2024, e na UPA de Ceilândia, em 2022, expõe uma verdade incômoda: há dinheiro entrando, há dinheiro saindo… mas há pouca clareza sobre o destino desses valores e, sobretudo, sobre quais prioridades estão orientando a gestão.

Em 2024, o Tribunal de Contas da União já havia alertado que o Iges-DF mistura recursos federais e distritais sem qualquer separação, rastreamento ou transparência mínima. Segundo o órgão fiscalizador, não é possível identificar de forma precisa a origem e o destino de parte dos recursos administrados pelo instituto — um problema estrutural que impede o controle público e favorece desvios de finalidade.

Essa opacidade produz efeitos reais. Neste ano, a Operação Escudero revelou um esquema de repasses facilitados dentro do Iges-DF para uma empresa de alimentação sem comprovação dos serviços prestados. A investigação apura crimes como corrupção, lavagem de dinheiro, tráfico de influência e organização criminosa.

Também neste ano, uma análise técnica, realizada pela Câmara Legislativa em outubro, confirmou o cenário preocupante: as despesas terceirizadas explodiram sem justificativa — alimentação aumentou 40,9%, segurança 48% e manutenção 24,35% — enquanto o instituto segue funcionando: sem auditoria externa, sem transparência sobre seus 670 cargos comissionados e com metas internas tão simples que produzem artificialmente a ideia de que tudo está indo bem.

Apesar disso, ainda na audiência pública, o Iges-DF celebrava o cumprimento de metas e a alta produtividade das unidades. O paradoxo é que, no mesmo momento, a própria gestão admitia que nenhuma UPA conseguiu atingir a meta de atendimento rápido para casos graves — justamente aqueles em que cada minuto faz diferença. Durante a sessão, também foi anunciada a construção de sete novas UPAs, orçadas em R$ 118 milhões. O resultado é um contraste duro: enquanto se promete expansão, o que já está funcionando segue deteriorando.

Quando a água escorre pelo teto, escorre também a máscara da gestão. O alagamento da UTI do Hospital de Base não é um evento climático isolado. É a consequência direta da falta de manutenção, de gastos inflados e não explicados, da ausência de controle, da inexistência de auditorias e de um modelo de gestão que opera sem transparência. Enquanto isso, pacientes sofrem e profissionais trabalham no limite — e milhões de reais continuam entrando no instituto sem que os cidadãos saibam exatamente onde cada centavo está sendo aplicado.

O Iges-DF administra o maior hospital do DF (o Base), o segundo maior (Santa Maria), o mais novo (Cidade do Sol) e todas as 13 UPAs. Administra vidas, esperanças e bilhões. Mas, não consegue garantir a integridade física das próprias unidades que gerencia. Não consegue impedir que uma chuva transforme uma UTI em área de risco. Por isso, diante de tudo o que se acumulou nos últimos anos, a pergunta que Brasília também precisa repetir é simples e urgente: para onde está indo o dinheiro do Iges-DF?

Porque onde há opacidade, há risco. Onde há investimento sem transparência, há precariedade. E onde há precariedade, vidas estão ameaçadas. A saúde pública do Distrito Federal não pode continuar funcionando na base da improvisação e da cortina de fumaça. É hora de abrir as contas, corrigir os rumos e devolver ao povo o que lhe pertence: serviços públicos de saúde dignos, seguros e transparentes.

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