Duas histórias na última semana rasgaram o tecido frágil de nossa civilização: uma cuidadora que esmurrou uma anciã e um filho que aprisionou a própria mãe em condições degradantes. Esses episódios não são acidentes – são sintomas. Revelam o tratamento que reservamos a boa parte dos 426.238 idosos do Distrito Federal. Pessoas com nome, história e direitos violados, vítimas de golpes e de discriminação, quando não de violência. São vozes que ecoam em vazio de políticas públicas que nunca saem do papel. São rostos que se perdem nas estatísticas de um sistema que falha em sua missão mais básica: cuidar das pessoas e garantir o direito à velhice digna.
O envelhecimento chegou sem que nos preparássemos para recebê-lo. Hoje, 13,3% dos brasilienses têm mais de 60 anos – em vinte anos, serão um em cada quatro. Esse rio demográfico já transborda, mas continuamos agindo como se fosse possível contê-lo com as mãos vazias. Enquanto a Suíça e a Noruega constroem diques de proteção social, nós aqui nos contentamos com frágeis barreiras de areia. O Brasil ocupa o 56º lugar no ranking global de qualidade de vida para idosos – uma posição que envergonha qualquer nação que se pretenda civilizada.
O Distrito Federal, embora tenha índices de qualidade de vida superiores à média nacional, não é grande destaque quando o assunto é o cuidado com o idoso – em especial aquele cidadão com menor capacidade financeira. Nossa capital, que deveria ser exemplo de civilidade, reproduz as mesmas desigualdades que marcam o país: para alguns, a velhice pode ser tranquila; para muitos, é uma batalha diária por dignidade. A falta de geriatras (os médicos especializados no cuidado com o idoso) no serviço público, a precariedade dos transportes adaptados e a ausência de programas estruturados de apoio familiar revelam o tamanho do abismo que separa o discurso da realidade.
No Plano Piloto, 80% dos idosos têm planos de saúde. Em Ceilândia, 86% dependem exclusivamente do SUS – o mesmo SUS que conta com apenas 22 geriatras para atender o maior contingente de pessoas, que são as mais necessitadas – o DF conta com 108 médicos especialistas nessa área. Essa desigualdade mata: enquanto no Plano Piloto os anos se acumulam por mais tempo com relativa dignidade, nas periferias a vida se esvai mais cedo, mais pobre e mais só, com menos dignidade e com alegria minguada.
No que diz respeito à saúde, os últimos anos das nossas vidas podem não ser os mais alegres, mas são, com certeza, os mais caros. E se a estrutura socioeconômica brasileira não permite que todo cidadão consiga bancar do próprio bolso o seu cuidado nos dias da velhice, o SUS tem que estar preparado para o amparo a esses cidadãos, que são nossos pais e avós, as pessoas que nos criaram, sustentaram e nos deram os meios para enfrentar nossos destinos.
Como estamos agora, a longevidade, que deveria ser conquista coletiva, torna-se privilégio de poucos. E o que dizer dos idosos em situação de rua, completamente invisíveis aos olhos do poder público?
A autonomia é o primeiro muro contra a violência aos idosos. Quando a saúde física e mental falha, abrem-se as portas para os maus-tratos, a negligência e a exploração. Onde o Estado se ausenta, a desesperança se instala. Conselhos Comunitários fazem o trabalho de enxugar gelo, tentando preencher com boa vontade o vazio deixado por políticas públicas inexistentes. O Estado tem que se fazer presente de forma mais eficaz, com orçamento adequado e programas que realmente alcancem quem mais precisa. A velhice não pode depender da sorte geográfica ou da caridade aleatória.
O envelhecimento não precisa ser esta travessia desamparada. Poderia ser – deveria ser – a última margem da vida, onde se colhem os frutos de décadas de trabalho e se compartilha a sabedoria acumulada. Isso exige mais do que discursos: exige geriatras concursados, centros-dia acessíveis, renda garantida, habitação adaptada e caminhos sem obstáculos pelas ruas das cidades. Exige, sobretudo, que enxerguemos nossos idosos não como peso, mas como raízes que ainda sustentam a árvore social. Eles carregam em suas memórias a história viva de Brasília – não merecem o abandono e o esquecimento.
Quando abandonamos nossos velhos, abandonamos nossa própria humanidade. E o rio do tempo, implacável, um dia nos levará a todos à mesma margem. Que DF queremos encontrar quando chegarmos lá? Um lugar onde a velhice é sinônimo de isolamento e descaso, ou uma sociedade que honra seus idosos com políticas concretas de acolhimento e dignidade? A resposta começa agora, nas escolhas que fazemos como sociedade e nas cobranças aos nossos governantes. O futuro que construímos para nossos idosos é o mesmo que nos aguarda.
