Reportagens da TV Globo mostraram, na última semana, o drama vivido por pacientes que buscam e não conseguem atendimento em unidades básicas de saúde do Distrito Federal. Moradores de Arapoanga, Ceilândia, Samambaia, Paranoá, Planaltina e Recanto das Emas ecoaram a mesma queixa: falta de médico. Mas essa é uma falta de médico como modo de gestão.
Não diferente do que ocorre nos hospitais públicos do Distrito Federal, as unidades básicas de saúde do Distrito Federal passam por um processo de sucateamento. É a mesma coisa em toda a estrutura do SUS. Enquanto o governo celebra números abstratos de cobertura da Estratégia Saúde da Família, mães enfrentam as madrugadas frias em filas intermináveis para conseguir uma consulta médica. Idosos e doentes crônicos são submetidos a essa mesma indignidade e veem suas condições se agravarem pela impossibilidade de acompanhamento médico regular e realização de exames.
Os dados, quando observados com atenção, não apontam para uma boa execução de uma política de saúde, ilustram uma história do descaso governamental. Temos 603 equipes de Saúde da Família no papel, mas na prática, apenas 523 médicos de família e comunidade contratados pelo governo do Distrito Federal para atender toda essa população no nível básico de assistência estão em atividade. O GDF repete o discurso de que as UBSs são a porta de entrada para o SUS, mas é uma porta que mantida semiaberta.
Na atenção primária à saúde fica mais evidente o déficit crônico de médicos no serviço público de saúde do DF, a desorganização da gestão e a desassistência à população. O Ministério da Saúde normatizou que cada equipe de saúde da família, cada uma com um médico, deve ter sob seus cuidados, até 3.500 moradores de determinada região. Quando olhamos a realidade do DF, vemos que em algumas localidades, dividindo o número de habitantes pela quantidade de médicos em serviço, existem situações em que a proporção é de mais de 10 mil moradores para cada médico. Em todas as regiões, o número de médicos é insuficiente.
Nas regiões mais carentes, como a Oeste (Ceilândia, Brazlândia), cada equipe chega a ser responsável por mais de 10.600 pessoas, quando o recomendado seria no máximo 3.500. Nas áreas rurais, a situação beira o absurdo: um único médico de família e comunidade, sem qualquer plano de contingência para férias ou licenças.
O que mais dói é saber que essa crise é fabricada. O concurso de 2022 aprovou 79 médicos, mas das 126 nomeações feitas desde aquele ano até 2024, apenas 55 permanecem no serviço. Não é difícil entender o motivo: condições de trabalho desumanas, salários que não valorizam a dedicação e uma carga emocional insustentável. Enquanto isso, o orçamento para atenção primária em 2024 foi de míseros R$ 135,4 milhões – menos do que o próprio governo cortou do orçamento da saúde este ano.
A atenção primária deveria ser o coração do SUS. É ela que previne doenças, organiza o fluxo de atendimentos e, quando funciona, evita que os hospitais fiquem sobrecarregados. Mas o que vemos é seu sistemático esvaziamento. Cada médico que desiste do serviço público, cada vaga não preenchida, cada real não investido representa famílias inteiras abandonadas à própria sorte.
Nas periferias do DF, a ausência do Estado na saúde básica cria um ciclo perverso: doenças que poderiam ser tratadas com orientação simples evoluem para complicações graves; condições crônicas não controladas levam a internações evitáveis; e a falta de acesso a exames preventivos condena muitos a diagnósticos tardios. Tudo isso tem nome: negligência institucionalizada.
Enquanto o poder público trata a saúde como despesa a ser cortada, e não como direito fundamental, continuaremos vendo cenas degradantes: pacientes chegando às 4h da manhã para garantir senha, idosos sendo atendidos em corredores, mães desesperadas porque não conseguem marcar uma consulta para seus filhos.
O SUS que conhecemos – aquele que deveria acolher, prevenir e cuidar – está sendo desmontado peça por peça no Distrito Federal, pelo governo, que é quem tem a obrigação de garantir a assistência a cada cidadão. E cada peça que falta é uma vida que poderia ter sido diferente.
A solução existe, e passa por: valorização real dos profissionais de saúde, investimento adequado na atenção básica e, acima de tudo, compreensão de que saúde não é gasto – é o alicerce de uma sociedade justa. Enquanto isso não for prioridade, continuaremos contando vidas perdidas em vez de vidas curadas.
