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Bebês à espera de UTI: o abandono do SUS-DF

A cada nova denúncia de superlotação e precariedade nos leitos neonatais da rede pública do Distrito Federal, a indignação cresce. A situação se agrava quando, além das dificuldades enfrentadas pelos bebês, as gestantes se veem forçadas a peregrinar de hospital em hospital em busca de atendimento digno. Muitas dessas mulheres enfrentam a insegurança de não saber se terão acesso a um parto digno e a dor de verem seus bebês à beira da morte, sem acesso a cuidados adequados, sem conseguir sequer garantir uma vaga para seu recém-nascido na UTI neonatal.

Durante o carnaval, a pauta da saúde que mais chamou atenção foi justamente essa: a crise na neonatologia, onde bebês recém-nascidos lutam por um direito básico — acesso a cuidados intensivos adequados. A realidade não é nova, mas apenas agora, com o fechamento do centro obstétrico do Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib), chegou ao debate público com a devida urgência. Um descaso com a saúde materno-infantil que evidencia, também, o abandono das gestantes e puérperas pelo sistema público em plena Capital do País.

Na última quinta-feira (6/3), dados da própria Secretaria de Saúde (SES-DF) apontavam que a ocupação das UTIs neonatais atingia 98,68%. No mesmo dia, sete bebês aguardavam por uma vaga; à noite, esse número caiu para dois. Mas, no Hospital Regional de Taguatinga (HRT), a fila ainda somava seis recém-nascidos, enquanto dois leitos estavam bloqueados. O cenário é desolador e mostra a falta de planejamento da gestão pública em lidar com um problema crônico.

Desde o ano passado, o SindMédico-DF vem denunciando problemas como esses. Mortes de recém-nascidos por negligência já levaram o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) a mover uma ação civil pública contra o governo e contra o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde (Iges-DF), responsável por grande parte das unidades de saúde do DF.

Além da falta de leitos, há também a carência de profissionais. No HRT, chegou-se ao absurdo de apenas um neonatologista estar responsável por toda a UTI neonatal e pelo atendimento de 13 recém-nascidos. A falta de pediatras nas salas de parto foi oficialmente denunciada por uma médica no último domingo (2). Esses fatos revelam uma negligência perigosa que expõe mães e bebês a riscos inaceitáveis.

Atualmente, o DF conta com apenas 656 médicos entre neonatologistas, ginecologistas e obstetras. E a escassez de profissionais se soma à falta de insumos básicos e à superlotação dos hospitais, agravando ainda mais a situação das mães que acabaram de dar à luz. Muitas enfrentam o medo e a angústia de verem seus bebês lutando pela vida sem o suporte necessário. E peregrinam pela rede pública sem conseguir acesso à saúde que deve ser um direito garantido.

O déficit de profissionais é notório, e a resposta do governo tem sido sempre a mesma: a ampliação da terceirização. Já falei sobre isso em outras ocasiões. E reafirmo: essa não é a solução. O modelo terceirizado de gestão já provou sua ineficácia, pois precariza o atendimento e não resolve os problemas estruturais da rede pública.

Os gestores públicos precisam ser cobrados. Mas e você, paciente do SUS-DF, cidadão que depende da saúde pública? Você precisa entender o que está acontecendo. A terceirização, ao contrário do que tentam vender, não trará eficiência à saúde pública do DF. O que precisamos é de investimento sério, contratação de profissionais e planejamento para garantir atendimento digno a quem mais precisa.

A crise na neonatologia do DF não é um problema novo, tampouco um problema sem solução. Mas, enquanto a prioridade for delegar a gestão da saúde a organizações sociais e institutos com pouca transparência, continuaremos vendo grávidas peregrinando de hospital em hospital e bebês recém-nascidos disputando vagas em UTIs superlotadas. E isso é inaceitável. Essa luta precisa ser de todos nós.

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