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Terceirização faz mal à saúde

Terceirização faz mal à saúde

Terceirização: uma palavra com 14 letras e um histórico de fracassos na saúde pública. No Distrito Federal, o governo insiste nessa fórmula desgastada, vendendo a ilusão de eficiência enquanto drena recursos para empresas privadas. A promessa é sempre a mesma: melhorar o atendimento. Mas o que se vê, na prática, são filas maiores, profissionais sobrecarregados e serviços precários.

As terceirizações na pediatria, anestesia e exames de imagem escancaram esse retrocesso. O discurso oficial fala em agilidade e ampliação do atendimento, mas os números provam o contrário: mais dinheiro gasto, menos resultados entregues.

A desculpa para terceirizar a pediatria, recém-anunciada, é a suposta falta de médicos. Mas os dados do CRM-DF desmentem essa narrativa: o DF tem 1.798 pediatras ativos. O problema não é a ausência de profissionais, e sim as péssimas condições de trabalho na rede pública.

Em vez de investir nos servidores e melhorar a estrutura, o governo escolheu um atalho caro para o bolso do cidadão e ineficiente. Contratou uma empresa privada por R$ 15 milhões para fornecer 14.048 horas de trabalho em seis meses. Para se ter uma ideia, esse valor equivale ao salário de 200 pediatras concursados no mesmo período. Poderíamos ter médicos fixos nos hospitais, mas preferem pagar mais para entregar menos. Por que será?

A situação da anestesia é ainda mais grave. Em junho de 2024, o governo anunciou a contratação emergencial de 150 anestesistas, por meio de três empresas sem licitação, ao custo de R$ 14 milhões. A grande promessa era destravar as cirurgias eletivas e reduzir filas.

Mas o que aconteceu na prática? Apenas 46 médicos foram arregimentados – e dois nem registro no CRM-DF tinham! Enquanto isso, 37.082 pacientes aguardam uma cirurgia, sendo que 1.388 esperam há mais de cinco anos.

Esses são dados reais, levantados pelo SindMédico-DF, com base em estatísticas  e informações do próprio GDF. O governo dizia que terceirizar resolveria o problema. Me pergunto: o problema de quem? Porque o seu, que precisa de uma saúde pública fortalecida, certamente não é. E o que vimos foi um contrato milionário que não entregou o serviço prometido. Os pacientes? Seguem sofrendo.

Agora, o plano do GDF para exames de imagem (ecografia, tomografia, raio-x e etc) segue a mesma lógica: pagar um valor absurdo por algo que já poderia estar sendo feito na rede pública. O governo quer terceirizar esses serviços por R$ 3 bilhões, ignorando que, em 2022, investiu R$ 42 milhões na compra de 476 novos aparelhos para os hospitais públicos.

O próprio governo já provou que a solução não está na terceirização. Em 2023, uma simples reorganização da carga horária reduziu a fila de mamografias em 80%, sem necessidade de contratar empresas privadas. Se a rede tem capacidade de atender, por que insistir na privatização? O que acontece por trás dessa insistência?

Os exemplos de fracasso da terceirização se multiplicam pelo Brasil. No Rio de Janeiro, hospitais geridos por Organizações Sociais enfrentaram atrasos salariais, falta de insumos e queda na qualidade do atendimento. Em Goiás, a terceirização levou ao fechamento de leitos por má gestão.

No DF, a história se repete: contratos milionários são assinados, mas o atendimento continua precário. E com um detalhe muito relevante. O assédio moral nessas relações contratuais. Recentemente, a Rede Globo do DF denunciou um escândalo na UPA do Gama. Uma  gestora da unidade foi exonerada após médicos denunciarem assédio e ameaças. Os profissionais relataram pressão para dar alta a pacientes internados e exaustão devido à sobrecarga de trabalho. Além disso, sofriam coação também para ir a eventos políticos do governador Ibaneis Rocha (para aplaudi-lo) sob pena de demissão.

E é também por isso que eu, como defensor da saúde e representante dos médicos do DF, defendo de forma inegociável o serviço público. Servidores públicos não ficam reféns de interesses privados, não precisam gerar lucro para empresas e têm um compromisso direto com a população. A terceirização não resolve os problemas da saúde pública – pelo contrário, os aprofunda, desviando recursos que poderiam ser investidos na valorização dos profissionais e na melhoria da estrutura hospitalar.

A saúde pública precisa de compromisso, não de negócios. Terceirização faz mal à saúde.

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