Pouco depois de a Polícia Federal lançar a Operação Sem Descontos, contra os descontos indevidos em benefícios do INSS, em maio de 2025 eu lancei um alerta de que um esquema semelhante ocorria no Distrito Federal: débitos não autorizados em contas correntes e nos contracheques de servidores do Governo do Distrito Federal em favor de associações desconhecidas dos alvos do golpe. Publiquei artigo, fiz vídeos alertando todos os servidores do DF e enviei alertas sobre essas fraudes por e-mail, WhatsApp e mensagens aos médicos associados ao Sindicato dos Médico do DF.
Médicos atingidos por essas fraudes tinham dificuldades no BRB, onde alegavam desconhecimento do problema e criavam mil dificuldades para cessar os descontos. Até para fazer um Boletim de Ocorrência na polícia havia resistência, porque eram valores baixos e o atendimento ao queixante, constrangedor. Em vez de uma investigação de um esquema que afetava a coletividade, cada ocorrência era tratada como caso individual.
Na época, questionamos a Subsecretaria de Gestão de Pessoas da Secretaria de Saúde e a direção do Banco de Brasília, sem que medida nenhuma fosse adotada pelas instituições. A assessoria jurídica do Sindicato dos Médicos do DF entrou em campo auxiliou os médicos sindicalizados a fazer os boletins de ocorrência e a cessar os descontos no BRB e para que os valores já subtraídos fossem devolvidos.
Passado um ano, no dia 28 de maio deste ano, a coluna da jornalista Ana Maria Campos no Correio Braziliense trouxe um texto com o título “Fraude do INSS no BRB: Justiça suspende descontos indevidos de correntistas do banco”.
Pouco menos de um mês depois, em 19 de junho, o Ministério Público e a Polícia Civil do DF deflagraram a Operação Juro Zero, que apura um suposto esquema de fraudes, de agentes públicos e privados, relacionado a descontos realizados nas folhas de pagamento de servidores públicos do Distrito Federal. Esse esquema criminoso é o que envolve a empresa de tecnologia financeira (fintech) PicPay e estima um roubo de R$ 81 milhões contra servidores públicos do DF.
Quatro dias depois, estava na rua a Operação Parasitas, da Polícia Civil do DF, que investiga um esquema de descontos associativos realizados sem autorização em contas de aposentados e pensionistas vinculados ao Governo do Distrito Federal. Estima-se que 3.500 contas bancárias no BRB tenham sido lesadas em um valor estimado de R$ 5 milhões.
Demorou um ano, com descontos ainda ocorrendo, para finalmente serem deflagradas as operações do MP e da polícia, para cessar o roubo aos servidores.
Também era óbvio que havia gente de dentro do governo e do BRB participando desse esquema criminoso. Não deu outra: três funcionários do BRB foram afastados, na Operação Parasitas. E, no âmbito da Juro Zero, constam como suspeitos dois integrantes do alto escalão da gestão Ibaneis, que já respondem por envolvimento em outros escândalos.
Não tenho prazer nenhum em dizer que avisei há muito tempo. Trago aqui essa ponderação, porque esse intervalo de tempo revela problemas na condução desse tipo de crime financeiro contra o cidadão brasileiro. Os criminosos parecem conhecer e lidar melhor com o ambiente tecnológico do sistema financeiro do que o Poder Público.
A legislação não acompanhou as mudanças tecnológicas; a regulação das fintechs é frágil; o controle da abertura de empresas e associações e participação societária nelas é praticamente nulo; a burocracia para o cidadão comum exigir seus direitos é grande e cara, quando é necessária a intervenção de um advogado; e os órgãos públicos não dão resposta satisfatória nem adotam medida nenhuma quando um tipo de ocorrência como descontos indevidos nos contracheques se torna frequente. Nos bancos é ainda pior, porque não há órgão de controle que centralize as ocorrências.
Em um ambiente como esse, tão fértil para que as organizações criminosas estendam seus longos tentáculos pelos vãos do sistema financeiro e do Estado, os roubos cometidos contra os trabalhadores são como uma coceira nas costas justamente naquele ponto cego que as mãos do Estado não alcançam.
Aqui no DF os prejuízos dos trabalhadores, especialmente os aposentados, se aproximam de R$ 100 milhões. No caso do INSS, chega a R$ 6, 3 bilhões. E o prejuízo não para aí. Também é grande o gasto do Estado com as operações policiais e processos judiciais que não garantem que o dinheiro roubado será restituído aos seus donos ao Estado, quando este faz o ressarcimento a quem foi roubado. É urgente que nossos legisladores, a Justiça e os órgãos do Executivo e de controle do sistema financeiro saiam da inércia e ofereçam segurança aos cidadãos.
