Você, leitor, acredita mesmo que a saúde do DF está indo bem? No Carnaval brasileiro, é permitido quase tudo: fantasia, exagero, promessas vazias e discursos embalados por euforia. O problema começa, no entanto, quando a lógica da folia ultrapassa a quarta-feira de cinzas e passa a orientar discursos de governo – especialmente na saúde pública.
O Distrito Federal parece ter criado um bloco próprio: aquele em que a gestão desfila narrativas otimistas enquanto a realidade sangra nos bastidores. Entre confetes retóricos e alegorias administrativas, a saúde pública do DF segue em colapso estrutural, ainda que parte do governo insista em vender a ideia de que “está tudo bem”.
Essa dissonância entre discurso e realidade não é nova. Os cinco hospitais, com 704 leitos prometidos pelo governador, em 2019, ficaram na concentração e não entraram na avenida. Com o entusiasmo de uma Ivete Sangalo no ato do trio elétrico, ele anunciou até as tratativas para trazer um parque da Disney para Sobradinho.
Dias depois, a própria Disney desmentiu a história. A fantasia se rasgou, a máscara caiu, a música parou – mas lógica das promessas vazias continua impregnada no discurso do governo, como o glitter do Carnaval passado, que nunca desaparece por completo.
Hoje, a mesma disposição para prometer o improvável reaparece, de novo, como fantasia de política pública de saúde.
Em janeiro deste ano, em meio a um cenário de falta de insumos básicos, filas intermináveis e hospitais operando no limite, a governadora em exercício do Distrito Federal anunciou que o GDF estuda incluir medicamentos à base de tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, no protocolo do SUS para obesidade. Um medicamento de alto custo, cercado de debates técnicos, apresentado como política pública prioritária. “Porque isso é política pública de saúde, sim”, afirmou.
Um dia depois do anúncio, como a Disney na história do parque, o Ministério da Saúde informou que não houve nenhum pedido de incorporação do Mounjaro aos medicamentos fornecidos pelo SUS.
Essa inversão de prioridades e o discurso fácil não são um episódio isolado. Eles revelam um padrão.
Também este ano, em entrevista ao Correio Braziliense, a governadora em exercício afirmou que a saúde é a área mais elogiada da ouvidoria do GDF. A declaração contrasta frontalmente com o cotidiano vivido por usuários e trabalhadores do SUS no DF: leitos insuficientes, escalas desfalcadas, exames represados e um sistema que só funciona, muitas vezes, por força de decisões judiciais.
Não por acaso, a saúde pública do Distrito Federal consolidou-se, nos últimos anos, como uma das áreas mais judicializadas da administração pública. A Justiça passou a ser acionada rotineiramente para garantir exames, consultas, cirurgias e internações que não foram ofertadas dentro de prazos minimamente razoáveis, um sinal de falência da gestão.
Ainda assim, o discurso oficial insiste em desfilar otimismo na avenida. Como quem governa de dentro de um parque temático imaginário, alheio ao colapso que se impõe fora dos portões.
Em 2024, a vice-governadora afirmou que 49% dos atendimentos realizados na rede pública de saúde do DF seriam de moradores do Entorno do DF, sugerindo que esse é o motivo do colapso do sistema. A declaração transfere o eixo do problema: sai a responsabilidade do gestor, entra a procedência do paciente. Como se o direito à saúde pudesse ser relativizado pelo CEP de quem adoece.
Em fevereiro de 2025, ao abordar a política de saúde mental, a simplificação foi ainda mais evidente. Ao afirmar que “essa é a era da ansiedade”, a autoridade pública reduziu um fenômeno complexo a uma espécie de marca geracional. A fala exclui determinantes sociais amplamente conhecidos: precarização do trabalho, insegurança econômica, sobrecarga dos serviços públicos, subfinanciamento e desorganização da rede de atenção psicossocial e ausência de cuidado continuado. Sofrimento psíquico coletivo não é modismo.
O fio condutor dessas declarações é claro: uma gestão que prefere narrativas fáceis a diagnósticos honestos. Promessas vistosas a soluções estruturais. Fantasias purpurinadas a bastidores em ruínas.
É por isso que o anúncio da inclusão de um medicamento de alto custo no SUS, em meio à escassez de insumos básicos, não surpreende – apenas confirma o enredo. Enquanto faltam gaze, leitos, profissionais e acesso oportuno ao cuidado, apresenta-se um tratamento sofisticado como símbolo de modernidade. É o equivalente sanitário a prometer um camarote vip em um bloco onde faltam água, segurança e banheiro químico.
A analogia com o Carnaval não é gratuita. Assim como na folia, o excesso de euforia costuma esconder improviso e descompromisso. A diferença é que, na saúde pública, o preço da fantasia não é pago com ressaca. Ele é pago com agravamento de doenças e mortes que poderiam ser evitáveis.
Saúde não é carro alegórico. Não comporta promessas irreais, nem anúncios pensados para o calendário eleitoral. Administrar a saúde exige responsabilidade técnica, prioridade orçamentária, respeito aos profissionais e, sobretudo, compromisso com a realidade concreta de quem depende do SUS para sobreviver.
O Carnaval passa. A quarta-feira de cinzas sempre chega. Mas, quando a fantasia vira método de governo, os efeitos são nocivos.
