Nenhum momento é mais delicado do que o nascimento de uma criança. Cada recém-nascido que chega ao mundo traz consigo não apenas a promessa de um futuro, mas também o dever do Estado de garantir que sua vida seja protegida e cuidada. Infelizmente, no Distrito Federal, essa responsabilidade vem sendo negligenciada. A cada medida equivocada da Secretaria de Saúde, a neonatologia – área essencial para a sobrevivência e desenvolvimento saudável dos nossos bebês (em especial, os prematuros) – se vê ainda mais fragilizada. O que vemos é a assistência a recém-nascidos no DF em colapso.
O déficit crônico de médicos neonatologistas não é novidade. O que choca é a forma como a Secretaria de Saúde do DF tem lidado com esse problema: em vez de investir em soluções estruturais, prefere adotar medidas improvisadas que apenas deslocam o caos de um hospital para outro, sem resolver a raiz da questão.
A devolução de médicos e a ameaça de colapso no HRSM
Uma das decisões mais graves foi a determinação de devolver neonatologistas cedidos ao Instituto de Gestão Estratégica de Saúde (Iges-DF), que atuam no Hospital Regional de Santa Maria (HRSM). Esses profissionais seriam realocados para o Hospital Regional do Gama e o Hospital Regional de Taguatinga. Na prática, isso significa desfalcar justamente o único serviço de neonatologia em funcionamento pleno no DF, transformando-o em mais um setor deficitário.
No Gama, a UTIN foi desativada em 2019, e os pacientes passaram a ser encaminhados para Santa Maria. Já em Taguatinga, as escalas continuam incompletas, e partos prematuros de alto risco precisaram ser redirecionados para o HMIB. Ou seja: tirar médicos de Santa Maria não resolverá os problemas dos hospitais de destino, mas agravará toda a rede.
Pior: os 14 especialistas cedidos ao Iges já manifestaram a intenção de pedir exoneração caso a medida seja efetivada. Estamos diante de um risco real de perda definitiva de profissionais qualificados, que preferem se afastar de um ambiente de desorganização do que continuar sob tamanho descaso.
Brazlândia: uma cidade inteira sem neonatologia
Outra decisão lamentável foi a retirada dos três únicos neonatologistas do Hospital Regional de Brazlândia, responsáveis por cobrir de 80 a 100 partos mensais. Esses profissionais foram deslocados para Ceilândia, para reabrir apenas dois leitos fechados temporariamente. O resultado? Brazlândia, com mais de 80 mil habitantes, ficará completamente desassistida nessa especialidade.
Na prática, seis leitos de cuidados intermediários do HRBz serão fechados. Eles sequer eram oficialmente cadastrados por falta de especialistas, mas funcionavam e eram indispensáveis diante da escassez de leitos em toda a rede. Mais uma vez, em nome de um “remendo”, o governo opta por sacrificar uma população inteira.
O peso da desassistência em números
Essas medidas não são pontuais. Elas se somam a um quadro estrutural alarmante:
A SES-DF contava com 170 neonatologistas em 2019; hoje são apenas 129; a pediatria caiu de 684 profissionais em 2014 para 410 em 2025; e a medicina intensiva pediátrica também despencou, de 84 em 2014 para 42 em 2025.
Enquanto isso, os números de nascimentos seguem elevados: em 2025, houve uma média de 2.491 nascidos vivos por mês nas unidades públicas do DF. Todos esses bebês precisam, em maior ou menor grau, de uma rede de neonatologia funcional e bem distribuída.
Na outra ponta, a fila da pediatria expõe o impacto da falta de profissionais: são 3.360 crianças esperando consulta pediátrica, com uma demora média absurda de quase dois anos (647 dias). Em cirurgia pediátrica, são 7.776 pacientes em espera, com um tempo médio de 615 dias.
Um risco inaceitável
A desassistência na neonatologia não é apenas um problema administrativo: é uma ameaça direta à vida. Cada recém-nascido que não encontra suporte especializado pode se tornar mais uma morte evitável. Por isso, denunciei, através SindMédico-DF, essas medidas ao Ministério Público e demais órgãos de controle. Não podemos aceitar que o DF, uma das unidades mais ricas da federação, falhe justamente em proteger seus cidadãos mais frágeis: os que acabam de nascer.
Se queremos um sistema público de saúde digno, precisamos de planejamento sério, concursos para contratação de médicos, valorização profissional e políticas permanentes. O improviso, a realocação irresponsável e a desorganização só ampliam o caos.
É hora de o governo assumir a responsabilidade de garantir que cada bebê brasiliense tenha direito ao cuidado que merece — desde o primeiro segundo de vida.
