O orçamento de um governo revela muito mais do que números em uma planilha: revela escolhas. Em meio a tantas demandas urgentes, decidir onde investir é, antes de tudo, uma declaração de prioridades. E, no Distrito Federal, ano após ano, a mensagem que se repete é clara: a saúde da população não está no topo da lista, a prioridade não é a vida.
Para 2026, o Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) previa, inicialmente, R$ 9 bilhões do Fundo Constitucional do DF (FCDF) para a saúde. Mas, na proposta encaminhada pelo Governo do Distrito Federal ao Congresso Nacional, esse valor caiu para R$ 7,8 bilhões. A justificativa? Reforçar a segurança pública, cuja fatia saltará de R$ 13 bilhões para R$ 15,3 bilhões. Educação e saúde, por outro lado, sofrerão cortes: a primeira cairá de R$ 6 bilhões para R$ 5,1 bilhões e a segunda perderá R$ 1,2 bilhão.
Esse movimento ocorre em um cenário em que o orçamento global do DF cresce 7,6% em relação a 2025, chegando a R$ 71,7 bilhões. Ou seja: a questão não é falta de dinheiro, mas como ele é distribuído. O mínimo constitucional para a saúde em 2026 seria de R$ 5,4 bilhões. Na prática, o GDF irá destinar cerca de R$ 13,2 bilhões: sem os repasses do Ministério da Saúde. O problema é que o crescimento do orçamento da Saúde será de apenas 1% em relação a 2025, enquanto o bolo geral cresce quase oito vezes mais.
Mais grave: desde 2018, a lógica de financiamento da saúde mudou. Até então, a maior parte vinha do próprio GDF (56,24%). Mas a partir de 2023, esse esforço foi reduzido a apenas 33,22%. Quem passou a sustentar a rede foi o Fundo Constitucional, com 65,61% dos recursos. A inversão demonstra uma prática perigosa: o governo local reduz sua responsabilidade direta e transfere o peso para a União.
A situação se agrava com os frequentes contingenciamentos. Em 2023, foram R$ 342 milhões bloqueados. Em 2025, esse valor já ultrapassa R$ 415 milhões. Recursos que poderiam ser usados para contratar médicos, comprar medicamentos ou manter ambulâncias simplesmente deixaram de chegar à ponta.
Outro exemplo de descaso é a inexecução na vigilância epidemiológica. Em 2023, dos R$ 49,5 milhões previstos, apenas R$ 28,9 milhões foram liquidados – pouco mais da metade. E, pior: o GDF cancelou 70% do que havia sido destinado originalmente para essa área, essencial para prevenir surtos de dengue. Dos recursos próprios, apenas R$ 21 mil chegaram de fato à atividade. O resultado? Uma epidemia de dengue sem precedentes.
E esse cenário de negligência não aparece apenas nas planilhas orçamentárias: ele é sentido diretamente pela população. Os números da última pesquisa do ObservaDF, projeto de avaliação de políticas públicas da UnB, confirmam o que os corredores dos hospitais gritam há anos: a saúde pública no Distrito Federal está em agonia. Quando 75,5% das famílias precisaram do SUS no último ano, quase metade avaliou negativamente o atendimento: 45% reprovaram as unidades básicas e 58,5% os hospitais. O dado mais alarmante, porém, é que 52,1% dos brasilienses não fizeram sequer um exame preventivo – entre os mais pobres, esse abandono chega a 55,8%.
Enquanto isso, o cotidiano da população segue marcado por filas, leitos insuficientes, falta de medicamentos, escassez de profissionais e pacientes sendo tratados pelo governo como mera estatística. Só que a dor tem nome, rosto e CPF: Rafaela, por exemplo, precisou recorrer a páginas da internet para pedir socorro ao marido, vítima de um acidente de moto. Ele quebrou o quadril e, mesmo em estado grave, não conseguiu atendimento no Hospital Regional de Ceilândia (HRC). A história dela não é exceção — é retrato de uma regra imposta pela gestão pública do DF.
No fim, os números contam uma história que Brasília já conhece bem: há dinheiro, mas não há prioridade. A cada orçamento aprovado, a saúde vai sendo empurrada para baixo na lista, como se o direito de acesso ao SUS fosse uma questão secundária.
E é por isso que o Distrito Federal vive, ano após ano, o mesmo apagão na saúde pública. Não por acaso, mas por escolha. Uma escolha que diz muito sobre o que – e quem – este governo realmente decide proteger.
