Os números da última pesquisa do ObservaDF, projeto de avaliação de políticas públicas do GDF criado pela Universidade de Brasília, escancaram o que os corredores dos hospitais já vinham gritando há anos: a saúde pública no Distrito Federal está em agonia. Quando 75,5% das famílias do DF precisaram do SUS no último ano, 45% deles avaliaram negativamente as unidades básicas com 45% e 58,5% os hospitais. Motivo: não tiveram atendimento ou o atendimento prestado não foi suficientemente bom – o trejeto da saúde à revolta.
Mas o dado que corta como um bisturi enferrujado é este: 52,1% dos brasilienses não fizeram sequer um exame preventivo no último ano. Entre os mais pobres, esse abandono chega a 55,8%. São números que não representam apenas descontentamento – revelam uma população maltratada e abandonada.
O governo conhece esse caos. Sabe que os 15 minutos cronometrados para cada consulta são uma farsa contra pacientes e médicos. Entende que faltam profissionais de saúde, equipamentos, exames e dignidade (para o paciente e para os profissionais de saúde). Mas sua resposta tem sido transformar hospitais em terrenos baldios para justificar a entrega do que resta ao setor privado. Se há reclamação, a solução dada é colocar câmeras para registrar as imagens de eventuais protestos exaltados.
A tentativa de criar a Organização Hospitalar do DF (OHDF) em 2019 foi o primeiro movimento nesse jogo perverso: extinguir carreiras públicas para transformar a saúde em negócio. Quando a resistência barrou o projeto, o governo adotou a estratégia do estrangulamento lento – esvaziar o SUS até que a terceirização pareça “solução”.
A receita é conhecida e cínica. Primeiro, asfixia-se o serviço público: cortam-se R$ 416 milhões da saúde enquanto se gasta bilhões em bancos. Depois, terceiriza-se o desastre: contratos que custam mais e resolvem menos, como os R$ 14 milhões em anestesias das quais só 309 foram realizadas. Por fim, transfere-se a culpa: profissionais de saúde viram alvo de agressões, pacientes viram números em filas, e o SUS vira um cadáver político para ser dissecado pelo setor privado.
A Rodoviária do Plano Piloto é um exemplo do roteiro completo dessa sanha pelas privatizações: entrega-se o público ao privado, criam-se tarifas para uso de área pública que era gratuito, expulsam-se pequenos comerciantes e o cidadão continua nas longas filas esperando ônibus lotados. Na saúde, o script se repete com vidas em jogo: menos médicos concursados, mais contratos falhos, e uma população que, desesperada, aceitaria qualquer solução – mesmo que venha envolta em interesses escusos.
Os números da pesquisa não são apenas estatísticas – são sintomas de um projeto político que vê a saúde não como direito, mas como despesa a ser cortada ou negócio a ser explorado. Quando 52,1% da população deixa de fazer exames preventivos, não estamos falando de má gestão, mas de negligência calculada. O DF não tem um problema na saúde – tem um projeto para a saúde. E cada número dessa pesquisa é um atestado de que esse projeto está matando.
A pergunta que fica não é quando o governo vai agir, mas se a população vai continuar aceitando ser tratada como custo, não como cidadã. Porque os dados do ObservaDF não mostram apenas a crise na saúde – mostram o limite da paciência de um povo que merece muito mais que migalhas de dignidade.
