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GDF quer manter estrangulamento da saúde até 2030

GDF quer manter estrangulamento da saúde até 2030

Os números não mentem: entre fevereiro de 2018 e julho deste ano, o Distrito Federal perdeu 559 médicos do serviço público – uma redução brutal de mais de 10% em pouco mais de seis anos. Enquanto isso, o último concurso para a categoria, realizado em 2018 e já prorrogado, vence definitivamente em setembro, sem qualquer perspectiva de um novo certame. Pior: em vez de corrigir essa hemorragia de profissionais essenciais, o Governo do Distrito Federal optou por intensificá-la com um contingenciamento de R$ 416 milhões no orçamento da saúde e a proibição de novas contratações e manter o estrangulamento da saúde.

O que se apresenta como medida de austeridade revela-se, na verdade, como mais um ato de uma estratégia perversa de desmonte sistemático. A justificativa de que ainda havia remanescentes do último concurso serviu, durante anos, como cortina de fumaça para evitar novas admissões – mesmo quando era evidente a urgência de reforçar o quadro. Em vez disso, em 2019, após fracassar na tentativa de privatizar toda a rede pública de saúde, o GDF implementou um sistema paralelo de contratações por meio do Iges-DF (Instituto de Gestão Estratégica de Saúde), tão precário quanto ineficiente. Prova disso é o imenso volume de ações judiciais que questionam as seleções simplificadas feitas pelo Instituto.

Os dados escancaram a farsa: dos 4.824 médicos concursados da Secretaria de Saúde, 2.195 cumprem a carga horária máxima de 40 horas semanais. No Iges, a média despenca para apenas 24 horas – isso quando há profissionais dispostos a aceitar os contratos oferecidos. A instabilidade contratual, a ausência de plano de carreira, as condições degradantes de trabalho e os frequentes casos de assédio moral criaram um cenário de rotatividade insustentável. Muitos médicos, cientes dos riscos, preferem manter distância para preservar seus registros profissionais. Outros acabam dividindo seu tempo com a iniciativa privada por pura necessidade de sustento.

O experimento da terceirização dos serviços médicos revelou-se um fracasso retumbante. O caso da anestesiologia é emblemático: dos 25.993 procedimentos contratados por R$ 14 milhões em junho de 2024, apenas 309 foram efetivamente realizados no ano passado – menos do que um único anestesista concursado executa anualmente. A interrupção do serviço entre outubro e janeiro agravou ainda mais o caos, mantendo inalteradas as filas de cirurgias eletivas, cujo objetivo da contratação emergencial era justamente reduzir.

O golpe final veio com o contingenciamento orçamentário de R$ 416 milhões, medida que inviabiliza qualquer tentativa séria de recomposição do quadro médico este ano. E mesmo que um novo concurso seja anunciado em 2026, as restrições impostas pelo período eleitoral servirão como mais um obstáculo. Enquanto isso, aposentadorias e exonerações continuam seu curso implacável, desenhando um futuro ainda mais sombrio para quem procura alívio e cura nas unidades públicas de saúde.

A resposta do governo a uma ação judicial sobre a falta de profissionais no Hospital Regional do Gama resume a postura da atual gestão: pediram quatro anos e meio para resolver o problema – tempo suficiente para empurrar a responsabilidade para o governo que assumirá em 2030. Isso mesmo: daqui a duas eleições.

Neste cenário, a pergunta que se impõe não é apenas técnica – é moral: que tipo de governo deliberadamente estrangula seu próprio sistema de saúde? Que projeto político se sustenta na negligência calculada? Em 2026, o eleitor do Distrito Federal não fará apenas uma escolha política, mas enfrentará um imperativo ético: resgatar a saúde pública das mãos de quem a vê como despesa, e não como investimento.

Até lá, cada dia será uma sentença para milhares de brasilienses condenados a sofrer num sistema que deveria salvá-los.

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