O Distrito Federal vive uma crise sanitária que se arrasta há anos. Isso é um fato. Mas o entendimento dos problemas da saúde e, mais ainda, do que seriam as soluções para eles, passam pela interpretação da realidade e pela manipulação da narrativa sobre ele – e quem detém o poder, controla a narrativa. As respostas que têm sido dadas pelo Governo do DF compõem narrativas com viés de marketing político, que criam uma ilusão de progresso, mas que pouco ou nada resolvem na prática. Essa estratégia de manipular a percepção pública serve para mascarar a realidade de um sistema de saúde colapsado, onde a insuficiência de médicos e outros profissionais e a precariedade dos serviços continuam a tirar vidas.
Um exemplo claro dessa política de narrativa é a criação, em janeiro, da Subsecretaria de Atenção à Saúde Mental, dentro da estrutura da Secretaria de Saúde do DF. Sem a contratação de profissionais necessários para estruturar a assistência, a medida não passou de criação de novos cargos comissionados na estrutura do governo, mas para quem precisa do serviço de assistência à saúde mental, nada mudou. A Rede de Atenção Psicossocial do DF possui apenas 114 psiquiatras, quando deveria contar com pelo menos 200. Situação que se repete com outras categorias profissionais, como psicólogos, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais, entre outros.
Outro caso emblemático foi o anúncio da criação do Centro de Referência Especializado em Autismo (Cretea), em abril, numa tentativa de parecer inovadora, embora já existam quatro centros especializados de referência com profissionais insuficientes e a mesma função. Ao criar uma nova nomenclatura e recrutar profissionais internamente, sem fazer as novas contratações necessárias, o governo esvazia os centros existentes, sem ampliar a oferta de assistência, mantendo o status quo, sob a aparência de avanços.
Na mesma linha, a assinatura de contratos para a construção de seis novas UPAs, anunciada como resposta aos recentes casos de óbitos nas unidades já existentes, é mais uma narrativa de marketing. Essas unidades não resolvem a falta de leitos de internação e de atendimento especializado, pois oferecem apenas leitos de observação, nos quais os pacientes não deveriam passar mais do que 24 horas. Aumenta o número de unidades, sem ampliação da capacidade de salvar vidas.
A consequência dessa política de narrativas vazias é que, em 2024, mais de sete mil pessoas perderam suas vidas dentro de unidades de saúde do DF — muitas por falhas evitáveis, como demora na realização de exames ou falta de médicos especialistas. Desde a pandemia da covid-19, os óbitos hospitalares nunca mais voltaram aos níveis de 2019, refletindo a gravidade do colapso e a falência do sistema.
O que torna tudo ainda mais revoltante é a repetição dessa estratégia de criar falsas esperanças, enquanto o governo acelera a entrega do sistema público de saúde ao mercado, por meio de terceirizações e obras de fachada. A sociedade precisa estar atenta e exigir transparência, denunciando essa manipulação de dados e discursos, pois o controle social é essencial para pressionar por mudanças concretas.
É fundamental que a população cobre do governo o reconhecimento dos erros e a mudança de postura: contratação de médicos e demais profissionais de saúde, ampliação da oferta de leitos de retaguarda, investimento e ampliação da prevenção e promoção à saúde na atenção primária e uma gestão verdadeiramente integrada, que coloque a vida e os direitos da população acima de interesses políticos ou econômicos.
A narrativa oficial não pode mais esconder a realidade: a saúde pública não é uma mercadoria, mas um direito inegociável, que exige ação concreta, fiscalização constante e resistência contra as tentativas de mascarar o fracasso com propaganda. Somente assim poderemos construir um sistema de saúde que realmente funcione, diminua as mortes evitáveis e respeite a dignidade de quem mais precisa.
