Há um sentimento angustiante que tem tomado conta dos corredores das nossas unidades de saúde — e não é apenas o cansaço dos profissionais ou o desespero dos pacientes. É o sentimento de inversão. De retrocesso. De abandono.
Por muitos anos, os hospitais públicos do Distrito Federal foram referência em atendimento para toda a região. Era comum que moradores do Entorno, enfrentando a ausência de estrutura em suas cidades, viessem ao DF em busca de um atendimento mais qualificado, especialmente em áreas delicadas como a pediatria. Recebíamos essas pessoas com o compromisso que o SUS carrega em sua essência: ser universal, integral, humano.
Mas agora estamos assistindo, perplexos, ao movimento contrário. Mães que buscam socorro para seus filhos no HMIB, hospital referência, relatam que foram orientadas por unidades como o Hospital de Santa Maria e a UPA de Samambaia — ambas geridas pelo IGES-DF — a procurarem atendimento fora do Distrito Federal. Sim, no Entorno. A lógica se inverteu: de polo de cuidado, nos tornamos ponto de dispersão.
Em declarações públicas, representantes do governo chegaram a justificar a precariedade do sistema com o argumento de que “49% dos nossos atendimentos vêm do Entorno”. Mas essa alegação desconsidera uma realidade comum em todo o Brasil: grandes centros de excelência sempre atraíram pacientes de outras regiões. É natural que pessoas procurem atendimento onde há mais estrutura. O que o governo precisa explicar não é por que as pessoas estão vindo, mas por que as pessoas estão indo – saindo do DF para buscar assistência.
Mais grave ainda é o fato de que agora o caminho se inverteu. Não somos mais apenas destino desses “pacientes itinerantes” — estamos nos tornando origem. A gestão terceirizada do IGES-DF, que deveria aliviar a carga do sistema, tem adotado uma postura paliativa e excludente: em vez de fortalecer a estrutura local, está expulsando nossos próprios pacientes, orientando mães a buscarem atendimento fora do DF, no Entorno. Um completo absurdo. A terceirização, longe de resolver, agrava o problema. E o que antes era uma via de mão única, com pacientes vindo ao DF em busca de socorro, agora se transformou numa estrada de abandono — com o DF empurrando seus cidadãos para longe da ajuda.
Atribuir a culpa ao Entorno é uma narrativa conveniente para desviar o foco do verdadeiro problema: a falência de um modelo de gestão que aposta na terceirização como solução mágica. E enquanto isso, o atendimento de base vai sendo desmontado, o corpo técnico se desvaloriza e a população paga o preço com a própria saúde — ou com a vida.
Esse cenário não é fruto do acaso. É resultado de uma política que terceiriza, terceiriza e terceiriza, até que não sobre mais nada de público, exceto a dor. E a pergunta que precisa ser feita com urgência é: a quem serve essa inversão? Quem se beneficia de uma saúde que expulsa os seus e fecha os olhos para o sofrimento das famílias?
Esse é um alerta que precisa ser ouvido. Quando mães com crianças doentes são orientadas a buscar socorro fora do DF, algo se quebrou — no sistema e no compromisso com a população.
Não vamos normalizar essa inversão. Não vamos nos calar diante de uma política que transforma o direito à saúde em um empurra-empurra de responsabilidades. Enquanto o governo transfere a culpa (e as pessoas para outro lugar), são vidas que seguem sofrendo.
Não se trata apenas de denunciar. Trata-se de exigir. Exigir que o Governo do Distrito Federal cuide dos seus. Que tenha coragem de admitir seus erros, seus interesses inconfessáveis com tantas terceirizações. É preciso valorizar o SUS! É preciso acreditar nele. E, aqui, vale lembrar da pandemia: o que seria de todos nós sem o maior sistema público de saúde do mundo? Precisamos de compromisso com a gestão do SUS.
Saúde é um direito. E direito não se terceiriza: se garante.
